Os novos tempos
Paulo Leão de Moura Jr, charmain na THB Group

Incluo-me entre os que estão entusiasmados com as medidas recentes da Susep: o anúncio de novas medidas e a abertura do mercado que permitirão sua atuação global.

Por outro lado, a intenção liberal de modernizar o mercado sofre o impacto da pandemia de Covid-19, situação crítica que afeta intensamente a política, economia e a sociedade mundiais, especialmente, o Brasil que vive de crises crônicas desde o começo da República. E desde o final do século XX, vivemos intensa turbulência e insegurança em todas as atividades brasileiras.

Assim, preocupa-me que o momento não seja propício para a promoção desta abertura.

Existem problemas, de origens diversas, que prejudicarão essa importante e salutar abertura. O que mais me preocupa, agora, é o mercado consumidor, o segurado: aquele que procura e compra os seguros e os serviços inerentes.

Temos que reconhecer que nossos clientes se mantêm ignorantes dos princípios que regem o seguro. Principalmente, da dependência da análise do risco que justificará o seguro. A culpa é dos próprios atores do mercado de seguro – os corretores de seguro, os seguradores, os resseguradores – que criaram uma imagem errada do seguro e seus serviços. A credibilidade e a confiança desse instrumento essencial à transferência de riscos continuam baixas.

Reconheço que a imagem do seguro está bem melhor que décadas atrás, porém, ante os imensos problemas e riscos gerados pelas sucessivas crises políticas, econômicas e sociais que vem nos afligindo e agravadas por essa horrível pandemia, muitos segurados-empresários estão preocupados com ações voltadas à efetiva sobrevivência de suas empresas. A questão da tratativa de seus riscos retoma a cuidadosa adoção de métodos de governança e de compliance.

Assim, a tendência da tratativa do risco e do seguro fica, como sempre aliás, condicionada exclusivamente ao preço. Os compradores – o setor de compras em uma empresa e, até mesmo, os que se apresentam como gerentes de risco – ignorantes do produto seguros seguem a régua: seguro ao menor custo.

A maioria não compreende que a tratativa do risco puro, mediante sua análise, a adoção de medidas para minimizá-lo e controlá-lo, a sua eventual transferência ao seguro a médio ou longo prazo significará uma real redução de custos em seus programas de seguro e, sobretudo, uma maior aceitação a seus riscos pelo mercado segurador. Redução, certamente, muito superior ao desconto obtido em sucessivas concorrências baseadas no velho ditado “me engana que eu gosto”.

A abertura proporcionada pela Susep, ainda em desenvolvimento, vem despertando grande interesse a alguns setores da sociedade. O escopo sugerido aos grandes riscos, por exemplo, é bastante atual e as entidades de ensino vem participando do seu desenvolvimento. Vemos a atuação em programas de seguro e de gerência de risco em inúmeras universidades. Vemos o surgimento de empresas voltadas ao ensino do seguro, de sindicatos de corretores proporcionando cursos sobre seguros mais voltados à venda do que à prestação de serviços. Julgam mais importante a venda do produto seguro.

Essa propensão para enfatizar o ensino exclusivamente a vender seguro sem tratar das inúmeras atividades que, de fato, darão suporte a venda é que leva, no tempo e no propósito, à perda de credibilidade do produto. Insisto em falar que seguro não é uma commodity. Seguro é um instrumento de tratativa de risco, de sua transferência mediante um contrato entre partes que devem acordar e aceitar as condições.

Assim, o aspecto relacionando à “venda” tem que, necessariamente, considerar a relevância da tratativa do risco e, portanto, o ensino, o marketing, a oferta e as operações têm que acompanhar a interdependência entre gerência de riscos básica ou de riscos puros com o seguro. 

A própria Susep, embora não seja absolutamente clara no assunto, reconhece a necessidade da tratativa ao risco ao determinar que a análise prévia é exigida para a contratação do seguro. A análise prevista na Circular nº 621 de 12 de fevereiro de 2021 não é considerada como a inspeção de risco adotada pelo mercado até agora, quando ocorre. É uma análise que implica conhecimento profundo do risco que apenas a gerência de risco pode dar.

Diante dessas considerações, preocupa-me perceber que grande parte do mercado continua atônito com as medidas salutares da Susep, aguardando os acontecimentos, sem aproveitar as maravilhosas consequências da abertura para dar credibilidade ao produto seguro e reconhecer que o gerenciamento de risco básico é função essencial do corretor de seguros profissional.

Agora é o momento para os corretores de seguro profissionais fazermos um esforço para nos preparar para atuarmos em uma nobre e exemplar atividade de prestar bons serviços em consultoria de risco e seguro, de negociarmos bons e sólidos seguros para nossos clientes, de sermos aceitos como profissionais da maior valia para os segurados, as seguradoras e as resseguradoras e acabar para sempre com esse estigma de que somos “meros intermediários”.

Embora vivendo em plena e tremenda crise, não devemos nos acovardar ante essas dificuldades: não é tempo para ficarmos aguardando como a concorrência irá agir, ou se a ação da Susep vinga ou não, ou como as seguradoras e resseguradoras atuarão. O mais importante, agora, é como explicar aos nossos clientes, de forma transparente e real, o verdadeiro significado da abertura do mercado segurador, as suas consequências e o que prevalecerá daqui em diante.

Certamente, não é o momento para julgarmos se o timingfoi ideal para a Susep realizar, com tanta coragem, essa fantástica abertura. Agora é o exato momento para mostrarmos a relevância, a importância, a necessidade e a credibilidade do gerenciamento do risco e seu melhor instrumento de transferência e financiamento: o seguro.

Escrito por Paulo Leão de Moura Jr, Charmain da THB Brasil, 26/04/2021.

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